11
mar
09

“Chinatown” (1974)

Título original: “Chinatown”
Título sugerido: “Por Água Abaixo”

Ele dirigiu “O Bebê de Rosemary”. Ele é franco-polonês. Ele transou com uma garota de treze anos. Ele não tinha treze anos. Nem catorze, nem quinze, nem dezesseis. Ele é Roman Polansky! Por incrível que pareça, um cara altamente sensível. Pelo menos é o que tenho a dizer depois de assistir o longa-metragem, ênfase dupla em longa e em metragem, só pra constar. Com roteiro aclamadíssimo de Robert Towne e estrelando Jack Nicholson e Faye Dunaway, “Chinatown” dá forma a um interessante estilo neo-noir de policial psicológico.

O detetive particular J.J. Gittes, interpretado por Jack Nicholson na performance agradavelmente menos Nicholsonesca de sua carreira, recebe diversos pedidos de pessoas atordoadas com a idéia da infidelidade de seus respectivos cônjuges. Quando uma mulher misteriosa entra em seu escritório pedindo por seu serviço na descoberta da suposta infidelidade do marido, mal saberia Gittes que estaria se envolvendo numa história assombrosa. Dias depois, Faye Dunaway bate em sua porta com um processo em mãos, dizendo que ela é na verdade a esposa do indivíduo e que nunca pediu seus serviços.

A relação entre os dois se aprofunda a medida que o detetive fareja a verdadeira montanha de merda que se empilha embaixo desse mal-entendido. É a década de 30, falta água em Los Angeles, e tem uma penca de canastrões gângsters querendo água e coisa e tal. Esse é meio que o ponto central do filme, mas é um porre então a gente pula essa baixaria e vai direto pra parte boa: Jack Nicholson e Faye Dunaway no romance criminoso mais equilibradamente inteligente, perspicaz e sedutor.

No fim das contas, você vai cagar pra quem roubou água de quem.

Lado A: O roteiro é um espetáculo. Sublime.
Lado B: Tapas na cara nunca mais terão o mesmo sentido.

Resultado:

Sim, é um filme longo pra burro, e se você não gosta muito do gênero de investigação política, não é lá um prato cheio. Mas respeitando os amantes do gênero investigativo, é possível se focar no lance noir da história, que ganha uma perspectiva bem curiosa num filme colorido. O elenco é impecável, e as tomadas são um álbum fotográfico. O personagem de Nicholson tem uma qualidade a mais que faltava em Hollywood, e este é sem dúvida um dos filhos rebeldes da indústria californiana.

Pra um dia em que você estiver com alguma paciência.

E com vontade de dar tapas na cara.

Veredicto: 4/5 jóinhas.
4/54/54/54/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

08
mar
09

“Watchmen” (2009)

Título original: “Watchmen”
Título sugerido: “Espetáculo Para O Olho Idiota, Parte 1”

E depois de um longo periodo sem atualizações devido a guinadas de vida absoluta desse lado da telinha, o blog entra no cinema de 2009 com o pé esquerdo, manco, rachado e cheio de joanetes. Do diretor de “300”, Zack Snyder, chega mais um blockbuster que mapeia com precisão cristalina todas as nuances do glúteo masculino mas não faz o mesmo com o roteiro, com a sensibilidade ou ao menos com o bom-senso. Com “roteiro” adaptado de David Hayter e Alex Man, mais uma bomba dos quadrinhos americanos ganha sua versão – desnecessária – para o cinema.

Jesus, por onde começar… Ok, somos apresentados com uma história alternativa do século XX, baseada obviamente nos Estados Unidos. Os super heróis saíram do armário nos anos 40 e fizeram parte publicamente de grandes momentos históricos, como o assassinato de Kennedy, a guerra do Vietnam e o resultado fictício que levou à reeleição de Richard Nixon como presidente americano. Um belo dia, um dos vigilantes descobre um plano maléfico para assassinar todos os heróis oficiais do governo, a maioria já aposentados. Você se pergunta, e daí? O elenco de vigilantes mascarados? Vários nomes (in)esquecíveis como Billy Crudup, Carla Gugino, Matthew Goode, e last but not least, Jeffrey Dean Morgan, a opção barata de Hollywood pra quem quer usar um efeito mezzo-Javier Bardem, mezzo-Robert Downey, Jr.

Lado A: Efeitos especiais magníficos e tomadas super ousadas.
Lado B: O resto.

Resultado:

Esse parágrafo geralmente é utilizado pra comentar o enredo do filme e como ele se desenrola. Como o enredo é praticamente inexistente, e o filme se desenrola de maneira pífia, gratuita e absolutamente aleatória, talvez eu quebre um pouco a regra por aqui. A história é tão jogada, e de uma maneira tão chata, absolutamente previsível e repleta de pornografia em suas mais diversas facetas, que fica difícil tentar me aprofundar muito aqui. Os atores não convencem, o mistério é jogado, o texto é pseudo-profundo, os clichês são pseudo-rebeldes e o público alvo são pseudo-adultos.

Por que, francamente, eu só percebi que não estava num filme infantil depois da trigésima cena de sexo com direito a gemidos, orgasmos e péssima escolha de trilha sonora.

Se pra bom entendedor, meia palavra basta…

…pra meio entendedor, “Watchmen” é magnífico.

E que venha a sequência!

Veredicto: 1/5 jóinhas.
1/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

21
fev
09

“Rio Congelado” (2008)

Título original: “Frozen River”
Título sugerido: “Inverno Na Alma”

A diretora estreante Courtney Hunt assina roteiro e direção neste drama glacial sobre maternidade, pobreza e segregação cultural. A veterana Melissa Leo encabeça o pequeno elenco, no papel de uma mãe abandonada pelo marido e deixada às traças com dívidas, dúvidas, valores arruinados e hipotecas. Misty Upham divide a tela com Melissa no papel de Lila, a representante da tribo dos Moicanos, mas longe de ser a última.

A balconista Ray Eddie vive como pode com sua família no interior norte do estado de Nova York, próximo às reservas indígenas e à fronteira canadense. Viciado em bingo, seu marido não pensa duas vezes antes de levar todas as economias da família embora e bater cartela mundo afora, deixando Ray para lutar sozinha pela sobrevivência da família e pela educação dos dois filhos; um adolescente maduro demais para sua idade e um garotinho de cinco anos que não deixa esfriar coração de mãe alguma.

Às vésperas de perder a casa mais espaçosa que prometera aos filhos, Ray encontra o carro do marido num bingo indígena, e segue a desgramada que o dirige. Após adentrar a reserva dos Moicanos, Ray descobre que Lila, ladra do carro, nunca conheceu seu marido. Numa empacação de sobrevivência mútua e movidas pela ferocidade materna, as duas começam de imediato a ir no sangue da outra e Ray acaba sendo persuadida por Lila a entrar no contrabando na fronteira canadense. O problema é que, pela estrada, é impossível fugir da polícia.

Felizmente, o grande rio que separa os países permanece congelado.

Lado A: Poucos dramas conseguem acertar a mão na depicção do frio como personagem crucial da trama.
Lado B: Ray & Lila deixam Thelma & Louise parecendo reclamonas destrambelhadas.

Resultado:

Faz frio o filme inteiro, por todo o filme, em cada cena, em cada olhar. Na trilha, na foto, no cenário, nas lágrimas, na angústia. Melissa Leo é a escolha absoluta e indiscutível para o papel, e o jovem Charlie McDermott arranca surpresas no papel do filho adolescente de Ray. Pelo viés da maternidade, Courtney Hunt guia essa história de ilegalidade, desespero e abandono numa solidão dilacerante, num compasso que parece estar milhas além da melancolia.

Assino este post com o coração abaixo de zero.

Veredicto: 5/5 jóinhas.
5/55/55/55/55/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

21
fev
09

“Rumba” (2008)

Título original: “Rumba”
Título sugerido: “Para Bom Entendedor…”

A dupla de comediantes Abel et Gordon, formada pelo ator belga Dominique Abel e pela atriz canadense Fiona Gordon marca o olhar de qualquer um pela pungência de sua esquisitice. Altíssimos, magrelos, desconjuntados e com uma forte veia clown, a dupla se juntou a Bruno Remy para dirigir e estrelar “Rumba”.

A história dessa comédia essencialmente pantomímica é muito simples: um casal de professores de escola infantil, normótico e absolutamente treta-free, exercita sua densa paixão pelo ritmo caribenho e se decide se inscrever em mais um campeonato de dança nas suas horas vagas. Acontece que, sem dar um pio, e usando até a última gota de seu talento circense e de artes do corpo, este casal sofre.

Uma noite voltando para sua cidade, Dominique e Fiona – mesmos nomes dos seus intérpretes – sofrem um terrível acidente de carro para salvar um suicida que esperava a morte no meio da estrada. Sem cerimônia, Fiona perde logo uma perna – mas não a simpatia – e Dominique perde a capacidade de reter memória recente, mas não perde a disposição de continuar tentando. A prisão em seus novos corpos e a vontade de continuar dançando rumba rendem seqüências geniais, e mantêm a chama do casal acesa após sua trágica separação.

Lado A: Dom e Fiona são capazes de extrair as mais diversas reações até estáticos e mudos.
Lado B: As tiradas visuais, insinuações e malícia dão um show à parte.

Resultado:

Extremamente confuso e esquisito de se compreender, com vários momentos arrastados sem perder a peculiaridade, “Rumba” é um gênero muito peculiar de comédia muda, coreografia, teatro e crítica brilhante, com sacada atrás de sacada e uma direção de arte impecável. Em alguns momentos parece beirar a ambience de filme de arte, e a compreensão da história é um jogo paralelo de interpretação altamente subjetiva. A dança, o corpo e o conformismo otimista são a receita dos diretores e atores para contar uma estranha história de um estranho casal apaixonado.

Mesmo que não seja um pelo outro.

Veredicto: 4/5 jóinhas.
4/54/54/54/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

17
fev
09

“O Lutador” (2008)

Título original: “The Wrestler”
Título sugerido: “Carneiro de Deus”

Também sai pérola do lixo; do submundo da luta-livre americana e de toda a subcultura dos subprodutos white trash americanos, surge uma história impressionante. Com roteiro de Robert D. Siegel e direção e produção do mesmo Darren Aronofsky de “Requiem Para Um Sonho”, “O Lutador” ganha o sopro de vida de três nomes famosos que já lidaram de perto com o fracasso: Marisa Tomei, Evan Rachel Wood… e Mickey Rourke.

Numa tradução bem porca, o fictício ícone da luta livre dos anos 80, Robin Ramzinski, conhecido como “THE RAM”, é chamado de Randy “O CARNEIRO” Robinson, e tão rápido quanto nos créditos de abertura, vinte anos passam num piscar de olhos. Pra começo de conversa Mickey Rourke já merece um Oscar por adequação física brutal e absoluta para o papel: é indubitável que o cara sabe exatamente do que ele tá falando. Jogue na salada Evan Rachel Wood como uma adolescente mega enfurecida e Marisa Tomei mostrando teta pra caralho, sem trocadilhos, e você tem aí um plat du jour só com as especialidades da casa.

Randy coleciona os louros de sua carreira com cheiro de verniz, e acaba se tornando uma paródia de si mesmo na luta para continuar sobrevivendo com um pingo de dignidade. Vivendo uma vida medíocre sem tirar o pé do acelerador, não demora para ele se perceber velho, caído, sem o amor da filha, e apaixonado por uma stripper. A grande honra do cara? Não reclamar. É a união da dor física com a dor emocional e a resistência às restrições e sacanagens da vida que fazem do personagem de Mickey Rourke um marco na história dos dramas de herói.

Lado A: Marisa Tomei deliciosamente soberba.
Lado B: Mickey Rourke no ringue é de tirar o fôlego.

Resultado:

Fosse pelo próprio “Requiem Para Um Sonho” ou por algum feeling do poster com o Mickey Rourke, aqui se consagra a noção, o bom senso e o tato de Darren Aronofsky. A idéia de ir além da abordagem costumeira da vida medíocre e degradada passando pela rotina e valorizando os lampejos das almas apagadas é maravilhosa. Tudo condiz com tudo, o filme realmente mostra a que veio, e foge como o diabo da cruz de tudo que é previsível, careta ou batido em filmes de herói. A trilha sonora é de um bom gosto mais do que cabível, as seqüências de luta fantásticas, e mais importante de tudo: a alma sensível e transparente de um ogro em decadência.

De deixar o resto na lona.

Veredicto: 5/5 jóinhas.
5/55/55/55/55/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

16
fev
09

“O Casamento de Rachel” (2008)

Título original: “Rachel Getting Married”
Título sugerido: “Procura-se Um Lexotan Desesperadamente”

Jenny Lumet, filha de Sidney Lumet, dá asas à imaginação e comprova o mito elementar da evolução humana. O roteiro da filha é um desbunde pro pai, e o resultado com a formidável direção do nova-iorquino Jonathan Demme e com a surpreendente performance de Anne Hathaway no papel central-porém-não-título é de deixar cicatrizes na retina.

Recém-saída pela enésima vez do antro anglo-saxão de clichês toxicômanos pós-modernos, vulgo rehab, a Kym de Anne Hathaway têm alguns dias para voltar pra casa e participar do casamento da irmã Rachel, interpretada pela estupenda Rosemarie DeWitt, antes do seu regresso à clínica. Acontece que a família de Kym já comeu o pão que diabo amassou – e exagerou no fermento – e os frangalhos sob os quais parecem viver tranquilamente vêm à tona com o retorno dela à casa.

Uma irmã normótica, um pai neurótico e uma mãe gelada conseguem parecer mais amáveis e dignos de compreensão do que o descontrole emociona de Kym no segundo round de uma insuperável tragédia familiar. Anne Hathaway acerta o tom da problemática Kym e ninguém parece apresentar características forçosas ou buscar empatia com o público. As pessoas são o que são, e a realidade delas é intragável.

Lado A: A atmosfera é o personagem principal e fala mais alto do que qualquer outro, gritante ou gritalhão
Lado B: O casamento pluricultural com direito à bateria de escola de samba é um alívio.

Resultado:

A tensão iminente causada pela pura presença de Kym é tão aflitiva que dá pra cortar com uma espátula e servir em pratinhos de plástico. Dá uma vontade absurda de imaginar um desfecho pra uma história que simplesmente não pode ter desfecho. Jonathan Demme acerta em cheio na direção de atores, apesar do descompasso na montagem do filme. Até aí, isso é culpa do estúdio e não do diretor, já que em produções dessa escala, raramente o diretor manda alguma coisa fora do set. É interessante observar como essa reunião de família tem todos os elementos visuais de estranhamento, com raças, culturas e temperamentos completamente heterogêneos, e como o desconforto silencioso de Kym fala mais alto que tudo.

Pra assistir com paciência.

Só não deixem a Rachel de lado… tadinha.

Veredicto: 4/5 jóinhas.
4/54/54/54/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

12
fev
09

“Milk – A Voz da Igualdade” (2008)

Título original: “Milk”
Título sugerido: “Leite”

Gus Van Sant está com fome de Oscar e não tem vergonha de admitir. Dirigindo o roteiro de Dustin Lance Black sobre a vida política de Harvey Milk, o mais importante nome na luta dos direitos gays americanos, Gus clama por estatuetas a todos os momentos. Quem também adora um carequinha dourado é Sean Penn, que por sua vez tampouco esconde a vontade de colher louros. Olha, fazia tempo que eu não via tanta vara junta querendo pescar prêmio – inserir piada de mau-gosto aqui.

Sean Penn vive Harvey Milk, um homem de 40 anos que vive abertamente sua homossexualidade bem longe dos holofotes numa San Francisco repressora e violenta nos anos 70. Um dia no metrô, assim, na maior, Sean Penn se atraca com James Franco e descobrimos que seus personagens têm sede de mudança. Enquanto ele grava seu testamento numa fita cassete, a cinebiografia passa pelos momentos mais importantes do casal e a lenta evolução de sua briga por direitos iguais entre gays e héteros.

De algum lugar inexplicável, surge Diego Luna, sim, o Tenoch de “E Sua Mãe Também”. Com uma atuação altamente canastricha, Diego Luna e elenco conseguem estereotipar os oprimidos e logo transformar a epopéia política num clichezão panfletário que cita inúmeras vezes a Constituição Americana e toda aquela energia “Jesus Te Ama” de “Hair”, mas sem as musiquinhas bacanas. Enfim, os tempos são difíceis, e se o mar não está pra peixe, quem dirá pra Oscar.

Fazer o quê? A isca é boa.

Lado A: Sean Penn, impecável como sempre, faz o filme assistível.
Lado B: A base documental é riquíssima e muito bem explorada.

Resultado:

A voz dos oprimidos e as grandes conquistas da humanidade sempre rendem filmes aclamadíssimos, ou que ao menos esperavam ser aclamadíssimos. “Milk” não tem nada de mais, Gus Van Sant dá um oizinho tímido em alguns planos extremamente belos e delicados, sem dizer muito a que veio. James Franco manda bem, Diego Luna está péssimo, e o resto é integralmente previsível. Talvez porque se trate de uma história verídica.

Se Sean Penn é muito bom ou se o retrato histórico é que é muito preciso, não sei se vi cinema aqui.

Agora, quem topa dizer em público que esse filme é bem do marromeno e ser taxado de homofóbico?

Alguém?

Veredicto: 3/5 jóinhas.
3/53/53/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.