Arquivo de 6 fevereiro, 2009

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“Dúvida” (2008)

Título original: “Doubt”
Título sugerido: “A Boa E Velha Igreja”

Que belo feito de John Patrick Shanley conseguir adaptar sua peça de teatro homônima e assinar roteiro e direção da versão cinematográfica… Este drama clérico sobre ordem, moral e as opostas facetas do bem-fazer vem com toda a pompa, peso e credibilidade que os atores Phillip-Seymour Hoffman e Meryl Streep têm poder de trazer ao projeto.

Streep vive a inefável e atroz Irmã Aloysius, diretora de um colégio católico americano em 1964. Menos óbvia que sua fé é sua astúcia, ao questionar com as irmãs do convento um enigmático sermão do Padre Flynn, papel de Seymour Hoffman. Nele, o Padre discorre sobre o poder e a força da dúvida, cerne indiscutível da grande questão de fé. Tal poder e tal força despertariam na Irmã um olhar mais apurado sobre o dia-a-dia na escola e a dura relação de autoridade e catecismo com os alunos de ginásio.

Entra em cena a cordeira Irmã James, interpretada por Amy Adams, uma professora doce e caridosa que segue à risca as inspirações bíblicas de zelo, bondade e compaixão. Orientada por Irmã Aloysius, Irmã James é incumbida de um papel moralmente dúbio: ficar alerta para possíveis anti-Cristos. Como toda boa polêmica envolvendo nossos amigos padres, seus coroinhas e taças de vinho cerimonial, a cara do capeta se aproxima aos poucos. Bote no mix a fragilidade do coroinha Donald, o primeiro aluno negro da escola em tempos de segregação.

Jesus, meu filho… nos seus dias era docinho

Lado A: Meryl Streep e Phillip Seymour-Hoffman na mesma cena.
Lado B: A Igreja é que está em cheque, e não a ladainha bíblica.

Resultado:

A retratação dos bastidores da vida clérica é de uma proximidade mundana formidável, e o filme consegue ser crítico sem apontar dedos e sem pragmatismo. Não se fala em Bíblia, não se fala em Jesus e não se fala em religião. Se fala sobre valores, a mudança dos tempos, as várias faces de uma verdade, e de preconceitos sociais sem embelezamento nem hipocrisia. Um dos maiores tabus da cultura ocidental é encarado de frente sem jamais ser nominado, e as meias-palavras do roteiro geram rebuliços homéricos pra qualquer bom entendedor.

As freiras vão ficar putas, mas os simpatizantes antropológicos delas podem até convidar uma pra tomar um chá.

Sem açúcar.

Resultado: 5/5 jóinhas.
5/55/55/55/55/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.




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