Arquivo de fevereiro \21\UTC 2009

21
fev
09

“Rio Congelado” (2008)

Título original: “Frozen River”
Título sugerido: “Inverno Na Alma”

A diretora estreante Courtney Hunt assina roteiro e direção neste drama glacial sobre maternidade, pobreza e segregação cultural. A veterana Melissa Leo encabeça o pequeno elenco, no papel de uma mãe abandonada pelo marido e deixada às traças com dívidas, dúvidas, valores arruinados e hipotecas. Misty Upham divide a tela com Melissa no papel de Lila, a representante da tribo dos Moicanos, mas longe de ser a última.

A balconista Ray Eddie vive como pode com sua família no interior norte do estado de Nova York, próximo às reservas indígenas e à fronteira canadense. Viciado em bingo, seu marido não pensa duas vezes antes de levar todas as economias da família embora e bater cartela mundo afora, deixando Ray para lutar sozinha pela sobrevivência da família e pela educação dos dois filhos; um adolescente maduro demais para sua idade e um garotinho de cinco anos que não deixa esfriar coração de mãe alguma.

Às vésperas de perder a casa mais espaçosa que prometera aos filhos, Ray encontra o carro do marido num bingo indígena, e segue a desgramada que o dirige. Após adentrar a reserva dos Moicanos, Ray descobre que Lila, ladra do carro, nunca conheceu seu marido. Numa empacação de sobrevivência mútua e movidas pela ferocidade materna, as duas começam de imediato a ir no sangue da outra e Ray acaba sendo persuadida por Lila a entrar no contrabando na fronteira canadense. O problema é que, pela estrada, é impossível fugir da polícia.

Felizmente, o grande rio que separa os países permanece congelado.

Lado A: Poucos dramas conseguem acertar a mão na depicção do frio como personagem crucial da trama.
Lado B: Ray & Lila deixam Thelma & Louise parecendo reclamonas destrambelhadas.

Resultado:

Faz frio o filme inteiro, por todo o filme, em cada cena, em cada olhar. Na trilha, na foto, no cenário, nas lágrimas, na angústia. Melissa Leo é a escolha absoluta e indiscutível para o papel, e o jovem Charlie McDermott arranca surpresas no papel do filho adolescente de Ray. Pelo viés da maternidade, Courtney Hunt guia essa história de ilegalidade, desespero e abandono numa solidão dilacerante, num compasso que parece estar milhas além da melancolia.

Assino este post com o coração abaixo de zero.

Veredicto: 5/5 jóinhas.
5/55/55/55/55/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

21
fev
09

“Rumba” (2008)

Título original: “Rumba”
Título sugerido: “Para Bom Entendedor…”

A dupla de comediantes Abel et Gordon, formada pelo ator belga Dominique Abel e pela atriz canadense Fiona Gordon marca o olhar de qualquer um pela pungência de sua esquisitice. Altíssimos, magrelos, desconjuntados e com uma forte veia clown, a dupla se juntou a Bruno Remy para dirigir e estrelar “Rumba”.

A história dessa comédia essencialmente pantomímica é muito simples: um casal de professores de escola infantil, normótico e absolutamente treta-free, exercita sua densa paixão pelo ritmo caribenho e se decide se inscrever em mais um campeonato de dança nas suas horas vagas. Acontece que, sem dar um pio, e usando até a última gota de seu talento circense e de artes do corpo, este casal sofre.

Uma noite voltando para sua cidade, Dominique e Fiona – mesmos nomes dos seus intérpretes – sofrem um terrível acidente de carro para salvar um suicida que esperava a morte no meio da estrada. Sem cerimônia, Fiona perde logo uma perna – mas não a simpatia – e Dominique perde a capacidade de reter memória recente, mas não perde a disposição de continuar tentando. A prisão em seus novos corpos e a vontade de continuar dançando rumba rendem seqüências geniais, e mantêm a chama do casal acesa após sua trágica separação.

Lado A: Dom e Fiona são capazes de extrair as mais diversas reações até estáticos e mudos.
Lado B: As tiradas visuais, insinuações e malícia dão um show à parte.

Resultado:

Extremamente confuso e esquisito de se compreender, com vários momentos arrastados sem perder a peculiaridade, “Rumba” é um gênero muito peculiar de comédia muda, coreografia, teatro e crítica brilhante, com sacada atrás de sacada e uma direção de arte impecável. Em alguns momentos parece beirar a ambience de filme de arte, e a compreensão da história é um jogo paralelo de interpretação altamente subjetiva. A dança, o corpo e o conformismo otimista são a receita dos diretores e atores para contar uma estranha história de um estranho casal apaixonado.

Mesmo que não seja um pelo outro.

Veredicto: 4/5 jóinhas.
4/54/54/54/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

17
fev
09

“O Lutador” (2008)

Título original: “The Wrestler”
Título sugerido: “Carneiro de Deus”

Também sai pérola do lixo; do submundo da luta-livre americana e de toda a subcultura dos subprodutos white trash americanos, surge uma história impressionante. Com roteiro de Robert D. Siegel e direção e produção do mesmo Darren Aronofsky de “Requiem Para Um Sonho”, “O Lutador” ganha o sopro de vida de três nomes famosos que já lidaram de perto com o fracasso: Marisa Tomei, Evan Rachel Wood… e Mickey Rourke.

Numa tradução bem porca, o fictício ícone da luta livre dos anos 80, Robin Ramzinski, conhecido como “THE RAM”, é chamado de Randy “O CARNEIRO” Robinson, e tão rápido quanto nos créditos de abertura, vinte anos passam num piscar de olhos. Pra começo de conversa Mickey Rourke já merece um Oscar por adequação física brutal e absoluta para o papel: é indubitável que o cara sabe exatamente do que ele tá falando. Jogue na salada Evan Rachel Wood como uma adolescente mega enfurecida e Marisa Tomei mostrando teta pra caralho, sem trocadilhos, e você tem aí um plat du jour só com as especialidades da casa.

Randy coleciona os louros de sua carreira com cheiro de verniz, e acaba se tornando uma paródia de si mesmo na luta para continuar sobrevivendo com um pingo de dignidade. Vivendo uma vida medíocre sem tirar o pé do acelerador, não demora para ele se perceber velho, caído, sem o amor da filha, e apaixonado por uma stripper. A grande honra do cara? Não reclamar. É a união da dor física com a dor emocional e a resistência às restrições e sacanagens da vida que fazem do personagem de Mickey Rourke um marco na história dos dramas de herói.

Lado A: Marisa Tomei deliciosamente soberba.
Lado B: Mickey Rourke no ringue é de tirar o fôlego.

Resultado:

Fosse pelo próprio “Requiem Para Um Sonho” ou por algum feeling do poster com o Mickey Rourke, aqui se consagra a noção, o bom senso e o tato de Darren Aronofsky. A idéia de ir além da abordagem costumeira da vida medíocre e degradada passando pela rotina e valorizando os lampejos das almas apagadas é maravilhosa. Tudo condiz com tudo, o filme realmente mostra a que veio, e foge como o diabo da cruz de tudo que é previsível, careta ou batido em filmes de herói. A trilha sonora é de um bom gosto mais do que cabível, as seqüências de luta fantásticas, e mais importante de tudo: a alma sensível e transparente de um ogro em decadência.

De deixar o resto na lona.

Veredicto: 5/5 jóinhas.
5/55/55/55/55/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

16
fev
09

“O Casamento de Rachel” (2008)

Título original: “Rachel Getting Married”
Título sugerido: “Procura-se Um Lexotan Desesperadamente”

Jenny Lumet, filha de Sidney Lumet, dá asas à imaginação e comprova o mito elementar da evolução humana. O roteiro da filha é um desbunde pro pai, e o resultado com a formidável direção do nova-iorquino Jonathan Demme e com a surpreendente performance de Anne Hathaway no papel central-porém-não-título é de deixar cicatrizes na retina.

Recém-saída pela enésima vez do antro anglo-saxão de clichês toxicômanos pós-modernos, vulgo rehab, a Kym de Anne Hathaway têm alguns dias para voltar pra casa e participar do casamento da irmã Rachel, interpretada pela estupenda Rosemarie DeWitt, antes do seu regresso à clínica. Acontece que a família de Kym já comeu o pão que diabo amassou – e exagerou no fermento – e os frangalhos sob os quais parecem viver tranquilamente vêm à tona com o retorno dela à casa.

Uma irmã normótica, um pai neurótico e uma mãe gelada conseguem parecer mais amáveis e dignos de compreensão do que o descontrole emociona de Kym no segundo round de uma insuperável tragédia familiar. Anne Hathaway acerta o tom da problemática Kym e ninguém parece apresentar características forçosas ou buscar empatia com o público. As pessoas são o que são, e a realidade delas é intragável.

Lado A: A atmosfera é o personagem principal e fala mais alto do que qualquer outro, gritante ou gritalhão
Lado B: O casamento pluricultural com direito à bateria de escola de samba é um alívio.

Resultado:

A tensão iminente causada pela pura presença de Kym é tão aflitiva que dá pra cortar com uma espátula e servir em pratinhos de plástico. Dá uma vontade absurda de imaginar um desfecho pra uma história que simplesmente não pode ter desfecho. Jonathan Demme acerta em cheio na direção de atores, apesar do descompasso na montagem do filme. Até aí, isso é culpa do estúdio e não do diretor, já que em produções dessa escala, raramente o diretor manda alguma coisa fora do set. É interessante observar como essa reunião de família tem todos os elementos visuais de estranhamento, com raças, culturas e temperamentos completamente heterogêneos, e como o desconforto silencioso de Kym fala mais alto que tudo.

Pra assistir com paciência.

Só não deixem a Rachel de lado… tadinha.

Veredicto: 4/5 jóinhas.
4/54/54/54/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

12
fev
09

“Milk – A Voz da Igualdade” (2008)

Título original: “Milk”
Título sugerido: “Leite”

Gus Van Sant está com fome de Oscar e não tem vergonha de admitir. Dirigindo o roteiro de Dustin Lance Black sobre a vida política de Harvey Milk, o mais importante nome na luta dos direitos gays americanos, Gus clama por estatuetas a todos os momentos. Quem também adora um carequinha dourado é Sean Penn, que por sua vez tampouco esconde a vontade de colher louros. Olha, fazia tempo que eu não via tanta vara junta querendo pescar prêmio – inserir piada de mau-gosto aqui.

Sean Penn vive Harvey Milk, um homem de 40 anos que vive abertamente sua homossexualidade bem longe dos holofotes numa San Francisco repressora e violenta nos anos 70. Um dia no metrô, assim, na maior, Sean Penn se atraca com James Franco e descobrimos que seus personagens têm sede de mudança. Enquanto ele grava seu testamento numa fita cassete, a cinebiografia passa pelos momentos mais importantes do casal e a lenta evolução de sua briga por direitos iguais entre gays e héteros.

De algum lugar inexplicável, surge Diego Luna, sim, o Tenoch de “E Sua Mãe Também”. Com uma atuação altamente canastricha, Diego Luna e elenco conseguem estereotipar os oprimidos e logo transformar a epopéia política num clichezão panfletário que cita inúmeras vezes a Constituição Americana e toda aquela energia “Jesus Te Ama” de “Hair”, mas sem as musiquinhas bacanas. Enfim, os tempos são difíceis, e se o mar não está pra peixe, quem dirá pra Oscar.

Fazer o quê? A isca é boa.

Lado A: Sean Penn, impecável como sempre, faz o filme assistível.
Lado B: A base documental é riquíssima e muito bem explorada.

Resultado:

A voz dos oprimidos e as grandes conquistas da humanidade sempre rendem filmes aclamadíssimos, ou que ao menos esperavam ser aclamadíssimos. “Milk” não tem nada de mais, Gus Van Sant dá um oizinho tímido em alguns planos extremamente belos e delicados, sem dizer muito a que veio. James Franco manda bem, Diego Luna está péssimo, e o resto é integralmente previsível. Talvez porque se trate de uma história verídica.

Se Sean Penn é muito bom ou se o retrato histórico é que é muito preciso, não sei se vi cinema aqui.

Agora, quem topa dizer em público que esse filme é bem do marromeno e ser taxado de homofóbico?

Alguém?

Veredicto: 3/5 jóinhas.
3/53/53/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

08
fev
09

“Ninho Vazio” (2008)

"Ninho Vazio"

Título original: “El Nido Vacío”
Título sugerido: “Recuerdos de Una Vida Ausente”

Daniel Burman é um diretor mega conceituado na Argentina. Como na Argentina conceito e densidade correm no sangue de muita gente, e todo mundo é tarado por psicanálise, imaginei que portenhos mega conceituados seriam capazes de apresentar com qualidade a intimidade da psique humana sem excessos. Com Cecilia Roth e Oscar Martínez como o casal central, Daniel Burman alcança a grandeza que dele seria esperada.

Leonardo é um escritor de meia-idade, num casamento estável, agradável e sem grande atrito aparente com a esposa, Martha. Depois de mais um jantar com toda a turma de amigos de faculdade de Martha, Leonardo se sente deslocado pela mediocridade alheia e incomodado por ser envolvido na nostalgia de uma história que não viveu. Puxando de lado um amigo psiquiatra pra conversar, vem à tona justamente o estudo sobre memórias fabricadas, e a sensação de recordar aquilo que não foi vivido.

Chegando em casa, Leonardo começa a anotar idéias para um novo romance, e assiste lentamente ao passar do tempo e à saída dos filhos de casa. Para rejuvenescer sua rotina, Martha resolve voltar à faculdade que largou para cuidar da família, e assume uma vida festiva de reuniões intermináveis e festas no apartamento do casal, para o incômodo silencioso de Leonardo, que por sua vez passa a se tornar um observador deste mundo que não mais lhe diz respeito e encontra a poesia que faltava em sua vida no olhar de uma bela auxiliar de dentista.

É Buenos Aires, queijos, vinhos, placidez e ambigüidade passiva no ar, mis amores.

Lado A: A transposição do estilo literário do personagem central na direção de Burman é magnífica.
Lado B: Jazz. Jazz fantástico e falsamente incidental caracterizam a rotina de maneira libertadora.

Resultado:

Será preciso muita maturidade e anos de bagagem nas costas para compreender a fundo alguns dos pontos sensíveis do âmago de cada personagem; eis um filme de gente grande. A percepção de Leonardo é extremamente instigante, e os desencontros do casal são representados com a naturalidade da vida mundana, sem dramatismos inoportunos. Além de planos deslumbrantes e uma precisão muito sutil para as transições e passagens de cena, Burman capta na devida proporção as variáveis emocionais da vida a dois, e das tentativas para quebrar o gesso.

Primazia portenha, che!

Veredicto: 4/5 jóinhas.
4/54/54/54/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

06
fev
09

“Dúvida” (2008)

Título original: “Doubt”
Título sugerido: “A Boa E Velha Igreja”

Que belo feito de John Patrick Shanley conseguir adaptar sua peça de teatro homônima e assinar roteiro e direção da versão cinematográfica… Este drama clérico sobre ordem, moral e as opostas facetas do bem-fazer vem com toda a pompa, peso e credibilidade que os atores Phillip-Seymour Hoffman e Meryl Streep têm poder de trazer ao projeto.

Streep vive a inefável e atroz Irmã Aloysius, diretora de um colégio católico americano em 1964. Menos óbvia que sua fé é sua astúcia, ao questionar com as irmãs do convento um enigmático sermão do Padre Flynn, papel de Seymour Hoffman. Nele, o Padre discorre sobre o poder e a força da dúvida, cerne indiscutível da grande questão de fé. Tal poder e tal força despertariam na Irmã um olhar mais apurado sobre o dia-a-dia na escola e a dura relação de autoridade e catecismo com os alunos de ginásio.

Entra em cena a cordeira Irmã James, interpretada por Amy Adams, uma professora doce e caridosa que segue à risca as inspirações bíblicas de zelo, bondade e compaixão. Orientada por Irmã Aloysius, Irmã James é incumbida de um papel moralmente dúbio: ficar alerta para possíveis anti-Cristos. Como toda boa polêmica envolvendo nossos amigos padres, seus coroinhas e taças de vinho cerimonial, a cara do capeta se aproxima aos poucos. Bote no mix a fragilidade do coroinha Donald, o primeiro aluno negro da escola em tempos de segregação.

Jesus, meu filho… nos seus dias era docinho

Lado A: Meryl Streep e Phillip Seymour-Hoffman na mesma cena.
Lado B: A Igreja é que está em cheque, e não a ladainha bíblica.

Resultado:

A retratação dos bastidores da vida clérica é de uma proximidade mundana formidável, e o filme consegue ser crítico sem apontar dedos e sem pragmatismo. Não se fala em Bíblia, não se fala em Jesus e não se fala em religião. Se fala sobre valores, a mudança dos tempos, as várias faces de uma verdade, e de preconceitos sociais sem embelezamento nem hipocrisia. Um dos maiores tabus da cultura ocidental é encarado de frente sem jamais ser nominado, e as meias-palavras do roteiro geram rebuliços homéricos pra qualquer bom entendedor.

As freiras vão ficar putas, mas os simpatizantes antropológicos delas podem até convidar uma pra tomar um chá.

Sem açúcar.

Resultado: 5/5 jóinhas.
5/55/55/55/55/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

04
fev
09

“Um Amor Quase Perfeito” (2001)

"Um Amor Quase Perfeito"

Título original: “Le Fate Ignoranti”
Título sugerido: “A Gaiola das Ressentidas”

Tudo bem que “As Fadas Ignorantes” não teria lá grande apelo comercial em português, mas “Um Amor Quase Perfeito” é uma péssima tradução livre para esse filme do turco-italiano Ferzan Özpetek. Premiado no circuito gay de cinema internacional, este drama sobre luto e a redescoberta do ser amado tem a seu favor uma série de belas atuações e uma trama de personalidade.

Tranquilamente casada por 15 anos, a médica infectologista Antonia é acometida pela morte brusca de seu marido, o galanteador e meio viado Massimo. Sem ao menos ter tempo de processar o trágico fim de seu marido, Antonia descobre um bilhete íntimo num presente que havia sido dado para ele em seu escritório. Decidida a conversar com essa amante a qualquer custo, Antonia começa uma busca sucinta e quase anti-climática, até, pelo paradeiro da mulher: ela briga com uma secretária… e descobre o endereço!

Chegando num cortiço, Antonia descobre que o misterioso amor de Massimo responde por Signora Mancini, ou se preferir; Michele. Ao se apresentar como esposa do falecido Massimo, Antonia é muito da mal-recebida e ainda tem que ouvir os despautérios da louca. Essa mágoa inicial entre Antonia e Michele se mostra enraizada na amargura pela morte de Massimo, e um laço inesperado surge da falta que sentem dele.

Só pra constar, Signora Mancini é um mal-entendido da vizinha do prédio, e na Itália, Michele é nome de homem.

Toma essa, Antonia.

Lado A: Margherita Buy é a cara da Marta Suplicy, mas mais incrível que isso só a firme presença da atriz italiana.
Lado B: Enigmática e bem-construída a sugestão de que quem ama de verdade é de um ceticismo inabalável.

Resultado:

O filme começa com cara de vídeo erótico B de TV a cabo na madrugada, passa por seqüências folhetinescas e leva um tempinho até se encontrar e colocar as asinhas de fora. Dá pra perceber a todo momento como essa história é de um caráter muito pessoal e quiçá apoteótico para o diretor Ferzan Özpetek; todos aqueles fragmentos de um inconsciente atribulado estão presentes.

A história caminha de maneira sutil, sensata e triste, como o coração de Antonia. Clichês e babaquice são brevemente anunciados para depois serem astutamente descartados. Özpetek dá um olé aqui, outro olé ali, para sugerir, de maneira sublime, uma reflexão sentimental muito íntima sobre sua forma de encarar a vida.

Talvez não cause impacto em muita gente, mas é um trabalho cuidadoso e digno de ser apreciado.

Veredicto: 3/5 jóinhas.
3/53/53/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.

01
fev
09

“O Leitor” (2008)

"O Leitor"

Título original: “The Reader”
Título sugerido: “Holocaustos da Paixão”

Do mesmo diretor de “As Horas” e “Billy Elliott”, esta adaptação do romance alemão “Der Vorleser”, de Bernard Schlink, aborda com sutileza admirável a era pós-nazismo na Alemanha, fugindo de panfletagens e chutes no saco. Stephen Baldry é um diretor finíssimo, e não é à toa.

No final da década de 50, o adolescente Michael passa mal na volta da escola, e vomita copiosamente debaixo de uma tempestade idílica. Ele é socorrido por uma senhora austera e maternal, e volta para casa com uma bela de uma peste bubônica e orientaçã médica de passar meses de cama.

O jovem Michael é interpretado por David Kross, e a senhora de bronqueza germânica inigualável é ninguëm mais ninguém menos do que Kate Winslet! Mon dieu, como o tempo passa. Depois de curado, Michael resolve ir visitá-la para agradecer e levar flores, mas quem acaba levando é ela. E levando muito.

Apaixonada pelos livros que Michael lhe lê, Hannah esconde um segredo que poderá por em cheque o resto da vida dos dois.

Lado A: Kate Winslet está um fe-nômeno nesse papel.
Lado B: A nudez é essencial como linguagem, e é presente como um belo artifício.

Resultado:

Não é fácil destrinchar a beleza desse filme sem revelar pontos importantíssimos da história para quem ainda não o viu. Stephen Baldry consegue conduzir uma sinfonia harmônica cinematográfica, com uma história séria, contundente, de muita tristeza e poesia. A delicadeza com que o filme aborda o amor inocente e o fardo da culpa imperdoável é de tocar a alma.

A única coisa que me incomodou é que Kate Winslet como uma senhora vinte anos mais velha do que Ralph Fiennes é forçar a amizade. Sem contar que o pouco conhecido David Kross rouba a cena dos dois veteranos.

Pra quem não liga pra esse tipo de coisa: vá, chore… e leia.

Resultado: 4/5 jóinhas.
4/54/54/54/5

Yours truly,
Woody Tarantovar.




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